Intervenção Urbana

Bocas do Rio, Canção Subterrânea

O Parque do Povo é um dos espaços mais importantes de Presidente Prudente. Ele organiza a cidade, recebe encontros, caminhadas, descanso e movimento. Mas, antes do parque existir, outro corpo já atravessava esse território: o Córrego do Veado. Hoje, esse rio segue correndo escondido, sob o concreto, fora do nosso olhar cotidiano.

A obra Bocas do Rio — Canção Subterrânea propõe um resgate poético desse rio invisível. No centro do parque, a instalação desenha o leito sinuoso da água usando galhos de diferentes formatos, pintados em tons de azul. Essa forma dialoga diretamente com a galeria d’água existente no local e marca, no espaço, a memória do rio que ainda passa ali, mesmo canalizado.

A experiência começa antes de chegar à obra. Quem caminha pela calçada é convidado a se aproximar por trajetos pintados em azul, que lembram o curso de um rio. Ao longo do caminho, frases despertam a escuta e a imaginação, convidando à reflexão sobre o que foi soterrado pela cidade — na paisagem e em cada pessoa.

“Que som teria esta rua se o rio ainda cantasse?”

“O que a cidade soterrou em você?”

“A terra sonha com a água. E você, sonha com o quê?”

“E se fosse lago, em vez de alagamento?”

A instalação segue o movimento “land art” e tem caráter visual e sonoro. Sons reais do Córrego do Veado, captados em trechos onde ele ainda corre à superfície ou em pontos de acesso ao seu fluxo subterrâneo, são devolvidos ao espaço por meio de dispositivos sonoros. O rio volta a ser ouvido como murmúrio, como memória e como presença viva.

Mais do que ouvir um som, o público é convidado a refletir sobre a relação entre cidade, natureza e memória. A obra propõe um gesto de reencantamento: escutar o que foi silenciado, perceber o que ainda pulsa sob nossos pés e imaginar novas formas de existir com a água, com a cidade e com o mundo. Sob o parque, ainda corre um rio.

E talvez ele ainda tenha algo a nos dizer.

Ficha Técnica: Proposição e Direção Artística: Nathália Campos. Idealização: Lizis e Rafael Costa. Apoio: Secretaria da Cultura e do Meio Ambiente de Presidente Prudente.

Desenvolvimento de Tecnologia: Gui Nani. Design Gráfico: Túlio Moscardi Imagens Aéreas e apoio: Thiago Tiedtke dos Reis. Captação de som para divulgação: Luís Farrus. Fotos: Gasalucinação.